A Emenda Sumiu: quando o dinheiro público se perde no caminho



A mais recente reportagem investigativa do jornal O Globo lança luz sobre um tema que há muito tempo incomoda gestores sérios e cidadãos atentos: o sumiço de verbas públicas oriundas de emendas parlamentares. Sob o título “A emenda sumiu”, o texto assinado pelos jornalistas Patrik Camporez e Thiago Faria revela, com minúcia, o rastro nebuloso de recursos federais que deveriam ter sido destinados à recuperação de estradas, construção de parques e melhorias urbanas em pequenas cidades do país.

Os casos narrados – como os de Arari (MA) e Zabelê (PB) – são emblemáticos de uma distorção sistêmica: o dinheiro chega às prefeituras, mas some nas tramas de transferências bancárias sucessivas, pulverizado em contas diversas e sem correspondência em obras reais. Em Arari, R$ 1,25 milhão destinados à recuperação de estradas vicinais se transformaram em pagamentos a lava-jatos, lojas de esportes e empresas de ar-condicionado. Já em Zabelê, um parque de R$ 3 milhões anunciado com pompa e vídeo promocional virou um terreno vazio e uma conta bancária com pouco mais de R$ 300.

Esses episódios expõem a vulnerabilidade das emendas PIX, mecanismo criado para acelerar repasses, mas que, ao dispensar projetos detalhados e fiscalização prévia, abriu espaço para abusos. A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, de exigir rastreabilidade e bloqueio de contas genéricas foi um passo necessário — embora tardio — para restaurar algum grau de transparência.

O problema, porém, é mais profundo. Ele toca no cerne do sistema político e na falta de controle técnico e social sobre a aplicação do dinheiro público. Quando os recursos são indicados sem critério técnico, sem planejamento integrado e sem compromisso com resultados mensuráveis, o risco de desvio ou uso indevido é altíssimo.

Como lembra a cientista política Beatriz Rey, da Universidade de Lisboa, não basta responsabilizar as prefeituras: “O parlamentar também tem de responder quando o dinheiro é desviado de sua finalidade”. É essa cadeia de corresponsabilidade que o país ainda não conseguiu estabelecer de forma efetiva.

No fim das contas, a história se repete com a previsibilidade de um roteiro triste: o dinheiro vem, o dinheiro vai, e o povo continua esperando a estrada que não existe, o parque que não saiu do papel e o desenvolvimento que nunca chega.

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